quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CHARLES DARWIN

Charles Darwin

Charles Darwin

Durante a sua vida, Charles Darwin tornou-se famoso internacionalmente como um influente cientista estudando a evolução das espécies.
Nascimento
Morte
Nacionalidade
Etnicidade
Campo(s)
Instituições
Conhecido(a) por
Influência(s)
Influenciado(s)
Prêmio(s)
Cônjuge(s)
Postura religiosa
Assinatura
Neto de Erasmus Darwin e também neto de Josiah Wedgwood

Charles Robert Darwin FRS (Shrewsbury, 12 de Fevereiro de 1809Downe, Kent, 19 de Abril de 1882) foi um naturalista britânico que alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural e sexual[1]. Esta teoria se desenvolveu no que é agora considerado o paradigma central para explicação de diversos fenômenos na Biologia.[2] Foi laureado com a medalha Wollaston concedida pela Sociedade Geológica de Londres, em 1859.
Darwin começou a se interessar por história natural na universidade enquanto era estudante de Medicina e, depois, Teologia.[3] A sua viagem de cinco anos a bordo do brigue HMS Beagle e escritos posteriores trouxeram-lhe reconhecimento como geólogo e fama como escritor. Suas observações da natureza levaram-no ao estudo da diversificação das espécies e, em 1838, ao desenvolvimento da teoria da Seleção Natural.[4] Consciente de que outros antes dele tinham sido severamente punidos por sugerir ideias como aquela, ele as confiou apenas a amigos próximos e continuou a sua pesquisa tentando antecipar possíveis objeções. Contudo, a informação de que Alfred Russel Wallace tinha desenvolvido uma ideia similar forçou a publicação conjunta das suas teorias em 1858.[5]
Em seu livro de 1859, "A Origem das Espécies" (do original, em inglês, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life), ele introduziu a ideia de evolução a partir de um ancestral comum, por meio de seleção natural.[1] Esta se tornou a explicação científica dominante para a diversidade de espécies na natureza. Ele ingressou na Royal Society e continuou a sua pesquisa, escrevendo uma série de livros sobre plantas e animais, incluindo a espécie humana, notavelmente "A descendência do Homem e Seleção em relação ao Sexo" (The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, 1871) e "A Expressão da Emoção em Homens e Animais" (The Expression of the Emotions in Man and Animals, 1872).
Em reconhecimento à importância do seu trabalho, Darwin foi enterrado na Abadia de Westminster, próximo a Charles Lyell, William Herschel e Isaac Newton.[6] Foi uma das cinco pessoas não ligadas à família real inglesa a ter um funeral de Estado no século XIX.[7]

Índice


Biografia

Infância e educação


Charles Darwin com sete anos, em 1816, um ano antes da morte da sua mãe.
Charles Darwin nasceu na casa da sua família em Shrewsbury, Shropshire, Inglaterra, em 12 de fevereiro de 1809.[8] Ele foi o quinto dos seis filhos do médico Robert Darwin e sua esposa Susannah Darwin. Seu avô paterno foi Erasmus Darwin e seu avô materno, o famoso ceramista Josiah Wedgwood, ambos pertencentes à proeminente e abastada família Darwin-Wedgwood e à elite intelectual da época. Sua mãe morreu quando ele tinha apenas oito anos. No ano seguinte, em 1818, Darwin foi enviado para a escola Shrewsbury.[9] Ali, ele só se interessava em colecionar minerais, insetos e ovos de pássaros, caça, cães e ratos.
Em 1825, depois de passar o verão como médico aprendiz ajudando o seu pai no tratamento dos pobres de Shropshire, Darwin foi estudar medicina na Universidade de Edimburgo. Contudo, sua aversão à brutalidade da cirurgia da época levou-o a negligenciar os seus estudos médicos. Na universidade, ele aprendeu taxidermia com John Edmonstone, um ex-escravo negro, que lhe contava muitas histórias interessantes sobre as florestas tropicais na América do Sul.[10] Em seu segundo ano, Darwin se tornou um ativo participante de sociedades estudantis para naturalistas. Participou, por exemplo, da Sociedade Pliniana, onde se liam comunicações sobre história natural. Durante esta época, ele foi pupilo de Robert Edmund Grant, um pioneiro no desenvolvimento das teorias de Jean-Baptiste Lamarck e do seu avô Erasmus Darwin sobre a evolução de características adquiridas.[11] Darwin tomou parte das investigações de Grant a respeito do ciclo de vida de animais marinhos. Tais investigações contribuíram para a formulação da teoria de que todos os animais possuem órgãos similares e diferem apenas em complexidade. No curso de história natural de Robert Jameson, ele aprendeu sobre geologia estratigráfica. Mais tarde, ele foi treinado na classificação de plantas enquanto ajudava nos trabalhos com as grandes coleções do Museu da Universidade de Edimburgo.[12]
Em 1827, seu pai, decepcionado com a falta de interesse de Darwin pela medicina, matriculou-o em um curso de Bacharelado em Artes na Universidade de Cambridge para que ele se tornasse um clérigo.[13] Nesta época, clérigos tinham uma renda que lhes permitia uma vida confortável e muitos eram naturalistas uma vez que, para eles, "explorar as maravilhas da criação de Deus" era uma de suas obrigações. Em Cambridge, entretanto, Darwin preferia cavalgar e atirar a ficar estudando. Ele também passava muito do seu tempo coletando besouros com o seu primo William Darwin Fox. Este o apresentou ao reverendo John Stevens Henslow, professor de botânica e especialista em besouros que, mais tarde, viria a se tornar o seu tutor. Darwin ingressou no curso de história natural de Henslow e se tornou um de seus alunos favoritos. Durante esta época, Darwin se interessou pelas ideias de William Paley, em particular, a noção de projeto divino na natureza.[14] Em suas provas finais em janeiro de 1831, ele se saiu muito bem em teologia e, mesmo tendo feito apenas o suficiente para passar no estudo de clássicos, matemática e física, foi o décimo colocado entre 178 aprovados.[15]
Seguindo os conselhos e exemplo de Henslow, Darwin não se apressou em ser ordenado. Inspirado pela narrativa de Alexander von Humboldt, ele planejou se juntar a alguns colegas e visitar a Tenerife para estudar história natural dos trópicos. Como preparação, Darwin ingressou no curso de Geologia do reverendo Adam Sedgwick, um forte proponente da teoria de projeto divino, e viajou com ele como um assistente no mapeamento estratigráfico no País de Gales.[16] Contudo, seus planos de viagem à Ilha da Madeira foram subitamente desfeitos ao receber uma carta que lhe informava a morte de um dos seus prováveis colegas de viagem. Outra carta, entretanto, recebida ao retornar para casa, o colocaria novamente em viagem. Henslow havia recomendado que Darwin fosse o acompanhante de Robert FitzRoy, capitão do barco inglês HMS Beagle, em uma expedição de dois anos que deveria mapear a costa da América do Sul.[17] Isto lhe daria a oportunidade de desenvolver a sua carreira como naturalista. Esta se tornaria uma expedição de quase cinco anos que teria profundo impacto em muitas áreas da Ciência.

A viagem A Viagem do Beagle


O percurso da viagem do HMS Beagle.
A viagem do Beagle durou quatro anos e nove meses, dois terços dos quais Darwin esteve em terra firme.[1][18] Ele estudou uma rica variedade de características geológicas, fósseis, organismos vivos e conheceu muitas pessoas, entre nativos e colonos. Darwin coletou metodicamente um enorme número de espécimes, muitos dos quais novos para a ciência. Isto estabeleceu a sua reputação como um naturalista e fez dele um dos precursores do campo da Ecologia, particularmente a noção de Biocenose. Suas anotações detalhadas mostravam seu dom para a teorização e formaram a base para seus trabalhos posteriores, bem como forneceram visões sociais, políticas e antropológicas sobre as regiões que ele visitou.[19]
Durante a viagem, Darwin leu o livro "Princípios da Geologia" de Charles Lyell, que descrevia características geológicas como o resultado de processos graduais ocorrendo ao longo de grandes períodos de tempo. Ele escreveu para casa que via formações naturais como se através dos olhos de Lyell: degraus planos de pedras com o aspecto característico de erosão por água e conchas na Patagônia eram sinais claros de praias que haviam se elevado;[20] no Chile, ele experimentou um terremoto e observou pilhas de mexilhões encalhadas acima da maré alta o que mostrava que toda a área havia sido elevada; e mesmo no alto dos Andes ele foi capaz de coletar conchas. Darwin ainda teorizou que atóis de coral iam se formando gradualmente em montanhas vulcânicas à medida que estas afundavam no mar, uma ideia confirmada posteriormente quando o Beagle esteve nas ilhas Cocos (keeling).[21][22]
Na América do Sul, ele descobriu fósseis de animais extintos como o megatério e o gliptodonte em camadas que não mostravam quaisquer sinais de catástrofe ou mudanças climáticas. Naquele tempo, ele pensava que aquelas eram espécimes similares às encontradas na África mas, após a sua volta, Richard Owen lhe mostrou que os fósseis encontrados eram mais similares a animais não extintos que viviam na mesma região (preguiças e tatus).[23] Na Argentina, duas espécies de ema viviam em territórios separados mas compartilhavam áreas comuns. Nas ilhas Galápagos, Darwin descobriu que cotovias (mockingbirds) diferiam de uma ilha para outra. Ao retornar à Inglaterra, foi lhe mostrado que o mesmo ocorria com as tartarugas e tentilhões. O rato-canguru e o ornitorrinco, encontrados na Austrália, eram animais tão estranhos que levaram Darwin a pensar que "Um incrédulo... poderia dizer que 'seguramente dois criadores diferentes estiveram em ação'". Todas estas observações o deixaram muito intrigado e, na primeira edição de "A Viagem do Beagle", ele explicou a distribuição das espécies à luz da teoria de Charles Lyell de "centros de criação". Em edições posteriores, ele já dava indicações de como via a fauna encontrada nas Ilhas Galápagos como evidência para a evolução: "é possível imaginar que algumas espécies de aves neste arquipélago derivam de um número pequeno de espécies de aves encontradas originalmente e que se modificaram para diferentes finalidades".

HMS Beagle na Austrália (centro), aquarela pintada por Owen Stanley em 1841.
Três nativos foram trazidos de volta pelo Beagle para a Terra do Fogo. Eles tinham sido "civilizados" na Inglaterra nos dois anos anteriores, ainda que os seus parentes parecessem à Darwin selvagens pouco acima de outros animais.[24] Em um ano, entretanto, aqueles missionários voltaram ao que eram e, de fato, preferiam esta condição uma vez que não quiseram retornar à Inglaterra.[25] Esta experiência somada a repulsa de Darwin pela escravidão] e outros abusos que ele viu em vários lugares, tais como o tratamento desumano dos nativos por colonos ingleses na Tasmânia, o persuadiram de que não há justificativa moral para maltratar outros homens baseado no conceito de raça. Ele passou então a acreditar que a humanidade não se encontrava tão distante dos outros animais como diziam seus amigos do clero.
A bordo do barco, Darwin sofria constantemente de enjoo. Em outubro de 1833 ele pegou uma febre na Argentina e em julho de 1834, enquanto retornando dos Andes a Valparaíso, adoeceu e ficou um mês de cama. De 1837 em diante, Darwin passou a sofrer repetidamente de dores estomacais, vômitos, graves tremores, palpitações, e outros sintomas. Estes sintomas se agravavam particularmente em épocas de estresse, tais como quando tinha de lidar com as controvérsias relacionadas à sua teoria. A causa da doença de Darwin foi desconhecida durante a sua vida e tentativas de tratamento tiveram pouco sucesso. Uma ideia esposada por Kettlewell e Julian Huxley, no início da década de 1960, defende que ele contraiu a Doença de Chagas ao ser picado por um inseto na América do Sul. No entanto, os autores reconhecem que especialistas nessa doença indicam que não há concordância dos sintomas de Darwin com os da doença. Outras possíveis causas incluem problemas psicológicos e a doença de Ménière.

Carreira como cientista e concepção da teoria


Ainda jovem, Charles Darwin ingressou na elite científica.
Enquanto Darwin ainda estava em viagem, Henslow cuidadosamente cultivou a reputação de seu antigo pupilo fornecendo a vários naturalistas os espécimes fósseis e cópias impressas das descrições geológicas que Darwin fazia. Quando o Beagle retornou em 2 de outubro de 1836, Darwin era uma celebridade no meio científico. Ele visitou a sua casa em Shrewsbury e descobriu que seu pai havia feito vários investimentos de forma que Darwin pudesse ter uma vida tranquila. Mais que isto, ele poderia ter uma carreira científica autofinanciada. Darwin foi então a Cambridge e convenceu Henslow a fazer descrições botânicas das plantas que ele havia coletado. Depois se dirigiu a Londres onde procurou os melhores naturalistas para descrever as suas outras coleções de forma a poder publicá-las posteriormente. Um entusiasmado Charles Lyell encontrou Darwin em 29 de outubro e o apresentou ao jovem e promissor anatomista Richard Owen. Depois de trabalhar na coleção de ossos fossilizados de Darwin no Royal College of Surgeons, Owen surpreendeu a todos ao revelar que alguns dos ossos eram de tatus e preguiças gigantes extintas. Isto melhorou a reputação de Darwin. Com a ajuda entusiasmada de Lyell, Darwin apresentou seu primeiro artigo na Geological Society de Londres em 4 de janeiro de 1837, afirmando que a massa terrestre da América do Sul estava se erguendo lentamente. No mesmo dia, Darwin apresentou seus espécimes de mamíferos e aves à Zoological Society. Os mamíferos ficaram aos cuidados de George R. Waterhouse. Embora, em princípio, os pássaros parecessem merecer menos atenção, o ornitólogo John Gould revelou que o que Darwin pensara serem corruíras (wrens), melros e tentilhões levemente modificados de Galápagos eram de fato tentilhões, mas cada um de uma espécie distinta. Outros no Beagle, incluindo o capitão FitzRoy, também tinham coletado estes pássaros mas haviam sido mais cuidadosos com suas anotações, o que permitiu a Darwin determinar de que ilha cada espécie era originária.[28]
Em Londres, Darwin ficava com o seu irmão e livre pensador Erasmus e, em jantares, eles encontravam-se com outros pensadores que imaginavam um Deus guiando a sua criação unicamente por meio de leis naturais. Entre eles, estava a escritora Harriet Martineau, cujas histórias promoviam a reforma das leis de proteção social de acordo com as ideias de Malthus. Nos meios científicos, ideias como a transformação de uma espécie em outra (transmutação) eram controversamente associadas com radicalismo político. Por isto, Darwin preferia a respeitabilidade de seus amigos mesmo quando não concordava plenamente com as ideias deles, tais como a crença de que a história natural devesse justificar religiões ou ordem social.
Em 17 de fevereiro de 1837, Lyell aproveitou o seu discurso presidencial na Geological Society para apresentar as descobertas de Owen em relação aos fósseis de Darwin, enfatizando as implicações do fato de que espécies extintas encontradas em uma região fossem relacionadas a outras que viviam atualmente na mesma região.[29] Neste mesmo encontro, Darwin foi eleito para o conselho da Geological Society. Ele já tinha sido convidado por FitzRoy para contribuir com o seu diário e notas pessoais para a seção de história natural do livro que o capitão estava escrevendo sobre a viagem do Beagle. Darwin também estava trabalhando em um livro sobre a geologia da América do Sul. Ao mesmo tempo, ele especulava sobre a transmutação de espécies no caderno de anotações que ele tinha iniciado no Beagle. Outro projeto que ele iniciou na mesma época foi a organização dos relatórios dos vários especialistas que haviam trabalhado em suas coleções em um livro de múltiplos volumes chamado "Zoologia da viagem do H.M.S. Beagle" (Zoology of the Voyage of H.M.S. Beagle). Darwin concluiu o seu diário em 20 de junho e, em julho, iniciou seu livro secreto sobre transmutação, onde desenvolveu a hipótese de que, apesar de cada ilha de Galápagos ter sua própria espécie de tartaruga, todas elas eram originárias de uma única espécie que tinha se adaptado à vida nas diferentes ilhas de diferentes modos.
Sob a pressão de concluir Zoologia e corrigir as revisões de seu diário, a saúde de Darwin deteriorou. Em 20 de setembro de 1837, ele sofreu palpitações do coração e foi passar um mês no campo para se recuperar. Ele visitou Maer Hall onde sua tia inválida estava sob os cuidados de sua irmã Emma Wedgwood e entreteve seus parentes com as histórias de suas viagens. Após o seu retorno do campo, ele evitava tomar parte de eventos oficiais que poderiam lhe tomar um tempo precioso. Contudo, por volta de março de 1838, William Whewell o recrutou como secretário da Geological Society. Mas logo a sua doença o forçou a novamente deixar seu trabalho e ele seguiu para Escócia para "fazer geologia". Ali, visitou Glen Roy para ver um fenômeno conhecido como "estradas" (roads) que ele (incorretamente) identificou como praias que se elevaram.
Charles casou com a sua prima Emma Wedgwood.
Completamente recuperado, ele retornou a Shrewsbury. Raciocinando cientificamente sobre a sua carreira e ambições, ele fez uma lista com as colunas "Casar" e "Não casar". Entradas na coluna pró-casamento incluíam "companhia constante e um amigo na velhice ... melhor que um cão de qualquer modo," enquanto listado entre as desvantagens estavam "menos dinheiro para livros" e "terrível perda de tempo". Os prós venceram. Ele discutiu a ideia de casar com o pai e então foi visitar sua prima Emma em 29 de julho de 1838. Ele não propôs casamento mas, contrariando os conselhos do pai, contou-lhe sobre as suas ideias de transmutação de espécies. Enquanto os seus pensamentos e trabalho continuavam em Londres, durante o outono, sua saúde voltou a definhar e ele passou a sofrer repetidas crises. Em 11 de novembro ele pediu Emma em casamento e, uma vez mais, lhe falou de suas ideias. Ela aceitou mas permaneceria sempre preocupada que os lapsos de fé de Darwin acabariam por pôr em risco a possibilidade de, como ela acreditava, se encontrarem após a morte.
Darwin considerou o raciocínio de Malthus de que a população humana aumenta mais rapidamente que a produção de alimentos, levando-a a uma competição e tornando qualquer esforço de caridade inútil. Ele viu naquela ideia uma forma de explicar (a) seus achados sobre espécies extintas que se relacionavam mais com outras não extintas encontradas na mesma região, (b) a similaridade entre espécies próximas umas das outras, (c) suas dúvidas derivadas da criação de animais e (d) sua incerteza quanto a existência de uma "lei de harmonia" na natureza. No fim de novembro de 1838, ele começou a comparar o processo de seleção de características feito por criadores de animais com uma natureza Malthusiana selecionando variantes aleatoriamente de forma que "toda a parte de uma nova característica adquirida é colocada em prática e aperfeiçoada", e pensou nisto como "a mais bela parte da minha teoria" de como novas espécies se originam. Ele estava procurando uma casa e acabou por encontrar "Macaw Cottage" na rua Gower, Londres, e então mudou seu "museu" para lá em dezembro. Ele já mostrava sinais de cansaço e Emma lhe escreveu sugerindo que ele descansasse, comentando quase profeticamente "Não adoeça mais meu querido Charley até que eu esteja aí para cuidar de você". Em 24 de janeiro de 1839, Darwin foi eleito membro da Royal Society e apresentou seu artigo sobre as "estradas" de Glen Roy

Casamento e filhos

Darwin em 1842 com o seu filho mais velho, William Erasmus Darwin.
Em 29 de janeiro de 1839, Darwin casou com sua prima Emma Wedgwood em Maer. Depois de primeiro morar em Gower Street, Londres, o casal mudou para Down House em Downe em 17 de setembro de 1842. Os Darwin tiveram dez filhos, três dos quais morreram prematuramente. Muitos deles e de seus netos alcançaram notabilidade.
Muitos dos seus filhos sofreram de doenças ou fraquezas e o temor de Darwin de que isto se devesse ao fato de que ele e Emma eram primos foi expresso em seus textos sobre os efeitos do acasalamento entre indivíduos de linhagens mais próximas (inbreeding) ou mais distantes (crossing).

Evolução por selecção natural

Temendo tanto as críticas científicas quanto as religiosas, Darwin passou décadas desenvolvendo as suas teorias evolutivas quase sempre em segredo.
Darwin era agora um eminente geólogo no meio científico formado por clérigos naturalistas, com uma renda segura e trabalhando secretamente em sua teoria. Ele tinha muito a fazer, escrevendo sobre todos os seus achados e supervisionando a preparação dos vários volumes da "Zoologia" que deveriam descrever as suas colecções. Ele estava convencido da ocorrência da evolução mas, desde muito tempo, sempre esteve consciente de que a ideia de transmutação de espécies era vista como uma blasfêmia, bem como era associada com agitadores democráticos radicais na Inglaterra; portanto, a publicação de suas ideias poderia significar a demolição de sua reputação e, consequentemente, a sua ruína. Assim, ele fazia experimentos minuciosos com plantas e consultava frequentemente muitos criadores de animais, incluindo criadores de pombos e porcos, na tentativa de encontrar repostas convincentes para todos os contra-argumentos que ele conseguia antever.
Quando FitzRoy publicou seu livro sobre a viagem do Beagle em maio de 1839, o diário e comentários de Darwin foram um grande sucesso. Mais tarde naquele ano, o diário foi publicado isoladamente em um livro que se tornou um sucesso de vendas hoje conhecido como "A Viagem do Beagle" (The Voyage of the Beagle). Em Dezembro de 1839, durante a primeira gravidez de Emma, a saúde de Darwin voltou a ficar comprometida e ele conseguiu avançar muito pouco em seus trabalhos no ano seguinte.
Darwin tentou explicar sua teoria para amigos mais próximos, mas eles demoraram a mostrar interesse e pensavam que uma selecção exige um seleccionador divino. Em 1842 a família se moveu para a sua casa no campo (Down House) para escapar da pressão de Londres. Ali, Darwin escreveu um pequeno texto esboçando a sua teoria que, em 1844, seria expandido para um documento de 240 páginas intitulado "Ensaio". Darwin completou seu terceiro livro sobre geologia em 1846. Auxiliado por um amigo, o jovem botânico Joseph Dalton Hooker, ele iniciou um estudo aprofundado sobre cracas. Em 1847, Hooker leu o "Ensaio" e fez comentários que forneceram a Darwin a opinião externa que ele precisava.
Darwin temia publicar a teoria de forma incompleta considerando o fato de que as suas ideias sobre evolução poderiam ser altamente controversas se, de fato, alguma atenção fosse dada a elas. Outras ideias sobre evolução - especialmente o trabalho de Jean-Baptiste Lamarck - tinham sido consistentemente rejeitadas pela comunidade científica britânica e foram associadas à noção de radicalismo político. A publicação anónima de "Vestígios da História Natural da Criação" (Vestiges of the Natural History of Creation) em 1844 gerou outra controvérsia sobre radicalismo e evolução e foi severamente atacada pelos amigos de Darwin, o que assegurava que nenhum cientista de reputação iria querer estar associado com tais ideias.
Para tentar tratar a sua doença, Darwin foi a um spa em Malvern em 1849 e, para a sua surpresa, verificou que os dois meses de tratamento com água o ajudaram. Em seu estudo sobre cracas ele descobriu "homologias" que suportavam a sua teoria por mostrar que partes de um corpo levemente modificadas poderiam servir a funções diferentes em novos contextos. Foi então que a sua querida filha Annie adoeceu despertando novamente os seus temores de que sua doença pudesse ser hereditária. Após um longo sofrimento, ela morreu e Darwin perdeu toda a sua fé em um Deus benevolente.
Nesta época, ele conheceu o jovem naturalista, e livre pensador, Thomas Huxley que se tornaria um amigo próximo e grande aliado. O trabalho de Darwin sobre cracas (Cirripedia) lhe valeu a medalha real da Royal Society em 1853, estabelecendo definitivamente a sua reputação como biólogo. Ele completou este estudo em 1854 e voltou a sua atenção para a sua teoria de transmutação de espécies.

Darwin, Mendel e a genética

Gregor Mendel foi o primeiro cientista a explicar os mecanismos da hereditariedade em um experimento sobre cruzamento de ervilhas publicado em 1866 [30]. Com os seus estudos, Mendel comprovou que as características eram determinadas por pares de elementos, herdados de cada um dos genitores e que passavam de uma geração a outra de forma particulada, ou seja, esses elementos permaneciam intactos [31]. Apesar de sua grande relevância, esse trabalho teve pouco impacto na época e passou desapercebido aos estudiosos da evolução por quase meio século, incluindo o prórpio Darwin. Com a redescoberta dos trabalhos de Mendel no início do século 20, os elementos envolvidos na herança foram denominados genes e a disciplina que estuda a hereditariedade passou a ser chamar genética.
Os primeiros geneticistas, no entanto, não acreditavam na eficácia da seleção natural como mecanismo evolutivo, mas sim da mutação, que era mais compatível com a herança mendeliana na época[32]. Com isso, no início do século 20, a genética mendeliana e a evolução darwiniana eram incompatíveis, contribuindo para o "eclipse do darwinismo"[33]. Enquanto as ideias de Darwin se baseavam em fundamentos erróneos e não testados sobre hereditariedade, como a herança por mistura ou de caracteres adquiridos, as conclusões de Mendel eram fundadas em experimentação cuidadosa. Os trabalhos de Mendel e Darwin só puderam ser reconciliados nos anos de 1930 e 1940 com a chamada Síntese Moderna [34], que se baseou nos fundamentos da genética de populações desenvolvidos nas décadas anteriores.

Anúncio e publicação da teoria

Ver artigos principais: A Origem das Espécies e Evolução.
Darwin encontrou uma resposta para o problema de como gêneros divergem ao fazer uma analogia com as ideias de divisão de trabalho na indústria. Variedades especializadas de um gênero, ao encontrarem nichos nos quais sua especialização é mais útil, forçariam a diversificação em espécies. Ele experimentou com sementes, testando a sua habilidade de sobreviver à água salgada, para determinar se uma espécie poderia se transferir para uma ilha isolada pelo mar. Ele também passou a criar pombos para testar a sua hipótese de que a seleção natural era comparável à "seleção artificial" usada por criadores de pombos.
Capa do livro A Origem das Espécies, de 1859
Foi então que, na primavera de 1856, Lyell leu um artigo sobre a introdução de espécies escrito por Alfred Russel Wallace, um naturalista trabalhando no Bornéo. Ciente da similaridade entre este trabalho e o de Darwin, Lyell pressionou Darwin para que publicasse o quanto antes a sua teoria, de forma a estabelecer precedência. Apesar de sua doença, Darwin iniciou o livro de três volumes intitulado "Seleção Natural" ("Natural Selection"), obtendo espécimes e informações de naturalistas como Asa Gray e o próprio Wallace. Em dezembro de 1857, quando trabalhava em seu livro, Darwin recebeu uma carta de Wallace perguntando se ele se aprofundaria na questão das origens do homem. Ciente dos temores de Lyell, Darwin respondeu: "Eu acho que irei evitar completamente este assunto, uma vez que ele é rodeado de preconceitos, embora eu admita que este é o maior e mais interessante problema para um naturalista". Ele então encorajou Wallace a teorizar sobre o tema, dizendo "não há observações boas e originais sem especulação". Quando o seu manuscrito já alcançava 250 mil palavras, em junho de 1858, Darwin recebeu de Wallace o artigo em que aquele descrevera o mecanismo evolutivo que concebera. Wallace também solicitara a Darwin que o enviasse a Lyell. Darwin assim o fez, embora estivesse chocado que ele tivesse sido "prevenido" do fato. Embora Wallace não tivesse solicitado a publicação, Darwin se ofereceu para enviar o artigo a qualquer revista que ele desejasse. Ele descreveu o que se passava para Lyell e Hooker. Estes concordaram em uma apresentação conjunta na Lynnean Society, em 1 de julho, do artigo intitulado "Sobre a Tendência das Espécies de formarem Variedades; e sobre a Perpetuação das Variedades e Espécies por Meios Naturais de Seleção" (On the Tendency of Species to form Varieties; and on the Perpetuation of Varieties and Species by Natural Means of Selection). Infelizmente, o filho caçula de Darwin faleceu e ele não pôde comparecer à apresentação.
O anúncio inicial da teoria atraiu pouca atenção. Ela foi mencionada brevemente em algumas resenhas, mas para a maioria dos revisores era apenas mais uma entre muitas variações de pensamento evolutivo. Nos treze meses seguintes Darwin sofreu com sua saúde precária e fez um enorme esforço para escrever um resumo de seu "grande livro sobre espécies". Recebendo constante encorajamento de seus amigos cientistas, ele finalmente terminou o texto e Lyell cuidou para que o mesmo fosse publicado por John Murray. O livro recebeu o título "Sobre a origem das espécies por meio de seleção natural" (On the Origin of Species by Means of Natural Selection) e, quando foi colocado à venda em 22 de novembro de 1859, esgotou o estoque de 1250 cópias rapidamente. Naquela época, o termo "evolucionismo" implicava criação sem intervenção divina e, por isso, Darwin evitou usar as palavras "evolução" ou "evoluir", embora o livro terminasse anunciando que "um número incontável das mais belas e maravilhosas formas evoluíram e estão evoluindo". O livro só mencionava brevemente a ideia de que seres humanos também deveriam evoluir tal qual outros organismos. Darwin escreveu de forma propositadamente atenuada que "luz será lançada no tocante à origem do homem e sua história".

Reação

Caricatura publicada na revista Hornet, onde Darwin é retratado como um macaco.
O livro de Darwin iniciou uma controvérsia pública que ele acompanhou atentamente, obtendo cortes de jornais de milhares de resenhas, críticas, artigos, sátiras, paródias e caricaturas. Críticos foram rápidos em apontar as implicações não discutidas no livro de que "homens fossem descendentes de macacos" ("men from monkeys"). Entretanto, houve resenhas favoráveis, entre elas, uma publicada no The Times escrita por Huxley que incluía críticas a Richard Owen, um expoente do meio científico que Huxley estava tentando "destronar". Owen pareceu inicialmente neutro mas então escreveu um artigo condenando o livro.
O corpo científico da Igreja da Inglaterra, incluindo os antigos tutores de Darwin em Cambridge, Sedgwick e Henslow, reagiu contra o livro, embora ele tenha sido bem recebido por uma nova geração de jovens naturalistas. Foi quando sete ensaios e resenhas feitas por sete teólogos anglicanos liberais declararam que milagres eram irracionais e atraíram a atenção para si, desviando-a de Darwin.
O confronto mais famoso ocorreu em um encontro da Associação Britânica para o Avanço da Ciência em Oxford. O professor John William Draper fez uma longa apresentação sobre Darwin e progresso social e, então, Samuel Wilberforce, o bispo de Oxford, atacou as ideias de Darwin. Em um acalorado debate, Joseph Hooker defendeu Darwin com tenacidade e Thomas Huxley se estabeleceu como o "bulldog de Darwin" – o mais veemente defensor da teoria evolutiva no palco Vitoriano. Conta-se que tendo sido questionado por Wilberforce se ele descendia de macacos por parte de pai ou de mãe, Huxley murmurou: "O Senhor o deixou em minhas mãos" e respondeu que "preferia ser descendente de um macaco que de um homem educado que usava sua cultura e eloquência a serviço do preconceito e da mentira" (isto é contestado, veja Wilberforce and Huxley: A Legendary Encounter). Logo se espalhou pelo país a história de que Huxley teria dito que preferia ser um macaco a um bispo.
Muitas pessoas sentiam que a visão de Darwin da natureza acabava com a importante distinção entre homem e animais. O próprio Darwin não defendia suas ideias em público, embora ele lesse avidamente tudo sobre o debate. Ele se encontrava frequentemente doente e apenas fazia comentários através de cartas e correspondência. Seu círculo central de amigos cientistas – Huxley, Hooker, Charles Lyell e Asa Gray – ativamente colocavam seu trabalho em discussão nos palcos científico e público, defendendo-o de seus muitos críticos e ajudando-o a ganhar o respeito que lhe valeu a medalha Copley da Royal Society em 1864. A teoria de Darwin também foi usada como base para vários movimentos da época e tornou-se parte da cultura popular. O livro foi traduzido para muitos idiomas e teve numerosas re-impressões. Tornou-se um texto científico acessível tanto para aos novos e curiosos cidadãos da classe média quanto para os trabalhadores e foi aclamado como o mais controverso e discutido livro científico de todos os tempos.

Últimos anos de vida

Em 1881, Darwin foi uma figura eminente, ainda trabalhando em suas contribuições ao pensamento evolutivo que teve um efeito enorme em muitos campos da ciência.
Apesar dos sucessivos problemas de saúde que acometeram Darwin nos seus últimos vinte e dois anos de vida, ele continuou trabalhando avidamente, passando a se dedicar aos aspectos mais controversos do seu "grande livro" que ainda estavam por ser completados: a evolução da espécie humana a partir de animais mais primitivos, o mecanismo de seleção sexual que poderia explicar características de não tão óbvia utilidade além de mera beleza decorativa, bem como sugestões para as possíveis causas subjacentes ao desenvolvimento da sociedade e das habilidades mentais humanas. Seus experimentos, pesquisa e escrita continuaram.
Quando a filha de Darwin adoeceu, ele deixou de lado o seu trabalho e experimentos com sementes e animais para acompanhá-la em seu tratamento no campo. Ali, ele iniciaria o seu interesse por orquídeas selvagens que se desenvolveria em um estudo inovador sobre como as flores serviam para controlar a polinização feita pelos insetos e garantir a fertilização cruzada. Como já observara com as cracas, partes homólogas serviam a diferentes funções em diferentes espécies. De volta ao lar, ele adoeceu novamente em um quarto repleto de experimentos e plantas trepadeiras. Ainda assim, continuou o seu trabalho no livro "Variação" (Variation), que cresceu até ocupar dois volumes, o que o forçou a deixar de lado "A descendência do Homem e Seleção em relação ao Sexo". Uma vez impresso, o livro foi muito procurado.
A questão da evolução humana tinha sido amplamente discutida pelos seus simpatizantes (e críticos) logo depois da publicação da "Origem das Espécies" mas a contribuição do próprio Darwin para o tema só veio uma década mais tarde com os dois volumes de "A descendência do Homem e Seleção em relação ao Sexo" em 1871. No segundo volume, Darwin introduziu por completo o seu conceito de seleção sexual e explicou a evolução da cultura humana, as diferenças entre os sexos, a diferenciação entre raças bem como a bela plumagem dos pássaros. Um ano mais tarde, Darwin publicou seu último grande trabalho, "The Expression of the Emotions in Man and Animals", que era focado na evolução da psicologia humana e sua continuidade com o comportamento animal. Ele desenvolveu a sua ideia de que a mente humana e culturas foram desenvolvidas por meio de seleção natural e sexual, uma abordagem que foi revivida com a emergência da psicologia evolutiva. Como ele concluiu em a "Descendência do Homem", Darwin achava que apesar de todas as "qualidades nobres" e "capacidades sublimes" da humanidade:
O homem ainda traz em sua estrutura fisica a marca indelével de sua origem primitiva.
Darwin
Seus experimentos relacionados à evolução culminaram em cinco livros sobre plantas, e então seu último livro voltou à discussão sobre o efeito que minhocas tinham sobre o solo.
Darwin morreu em Downe, Kent, Inglaterra, em 19 de abril de 1882. Ele deveria ter sido enterrado no jardim da igreja de St Mary em Downe, mas atendendo ao pedido de seus colegas cientistas, William Spottiswoode (Presidente da Royal Society) cuidou para que ele tivesse um funeral de estado e Darwin foi enterrado na abadia de Westminster próximo a Charles Lyell, William Herschel e Isaac Newton.

Visão religiosa

Embora vários membros da família de Darwin fossem pensadores livres, abertamente lhes faltando crenças religiosas convencionais, ele inicialmente não duvidava da verdade literal da Bíblia. Ele frequentava uma escola da igreja da Inglaterra e, mais tarde, em Cambridge, estudou teologia Anglicana. Nesta época, ele estava plenamente convencido do argumento de William Paley de que o projeto perfeito da natureza era uma prova inequívoca da existência de Deus. Contudo, as suas crenças começaram a mudar durante a sua viagem no Beagle. Para ele, a visão de uma vespa paralisando uma larva de borboleta para que esta servisse de alimento vivo para seus ovos parecia contradizer a visão de Paley de projeto benevolente ou harmonioso da natureza. Enquanto a bordo do Beagle, Darwin era bastante ortodoxo e poderia citar a Bíblia como uma autoridade moral. Apesar disso, ele via as histórias no velho testamento como falsas e improváveis.
A morte da filha de Darwin, Annie, em 1851 foi o evento que minou definitivamente a crença de Darwin em um Deus benevolente.
Ao retornar, ele investigou a questão de transmutação de espécies. Ele sabia que seus amigos naturalistas e clérigos pensavam em transmutação como uma heresia que enfraquecia as justificativas morais para a ordem social e sabiam que tais ideias revolucionárias eram especialmente perigosas em uma época em que a posição estabelecida da igreja da Inglaterra estava sob constante ataque de dissidentes radicais e ateus. Enquanto desenvolvia secretamente a sua teoria de Seleção Natural, Darwin chegou mesmo a escrever sobre a religião como uma estratégia tribal de sobrevivência, embora ele ainda acreditasse que Deus fosse o legislador supremo. Sua crença continuou diminuindo com o passar do tempo e, com a morte de sua filha Annie em 1851, Darwin finalmente perdeu toda a sua fé no cristianismo. Ele continuou a ajudar a igreja local e colaborar com o trabalho comunitário associado à igreja, mas, aos domingos, ia caminhar enquanto sua família ia para o culto. Em seus últimos anos de vida, quando perguntado sobre a visão que tinha a respeito da religião, ele escreveu que nunca tinha sido um ateu no sentido de negar a existência de Deus e, portanto, se descreveria mais corretamente como um agnóstico.
Charles Darwin contou em sua biografia que eram falsas as afirmações de que seu avô Erasmus Darwin teria clamado por Jesus em seu leito de morte. Darwin concluiu dizendo que "Era tal o estado de sentimento cristão neste país [em 1802].... Nós podemos apenas esperar que nada deste tipo prevaleça hoje". Apesar desta crença, histórias muito parecidas circularam logo após a morte de Darwin, em particular, uma que afirmava que ele havia se convertido logo antes de morrer. Estas histórias foram disseminadas por alguns grupos cristãos até ao ponto de se tornarem lendas urbanas, embora as afirmações tenham sido refutadas pelos filhos de Darwin e sejam consideradas falsas por historiadores.

Legado

A teoria de Darwin de que evolução ocorreu por meio de seleção natural mudou a forma de pensar em inúmeros campos de estudo da Biologia à Antropologia. Seu trabalho estabeleceu que a "evolução" havia ocorrido: não necessariamente por meio das seleções natural e sexual (isto, em particular, só foi comumente reconhecido após a redescoberta do trabalho de Gregor Mendel no início do século XX e o desenvolvimento da Síntese Moderna). Outros antes dele já haviam esboçado a ideia de seleção natural: em sua vida, Darwin reconheceu como tal os trabalhos de William Charles Wells e Patrick Matthew que ele (e praticamente todos os outros naturalistas da época) desconheciam quando ele publicou a sua teoria. Contudo, é claramente reconhecido que Darwin foi o primeiro a desenvolver e publicar uma teoria científica de Seleção Natural e que trabalhos anteriores ao seu não contribuíram para o desenvolvimento ou sucesso da Seleção Natural como uma teoria testável.
Apesar da grande controvérsia que marcou a publicação do trabalho de Darwin, a evolução por seleção natural provou ser um argumento poderoso contrário às noções de criação divina e projeto inteligente comuns na ciência do século XIX. A ideia de que não mais havia uma clara separação entre homens e animais faria com que Darwin fosse lembrado como aquele que removeu o homem da posição privilegiada que ocupava no universo. Para alguns de seus críticos, entretanto, ele continuou sendo visto como o "homem macaco" frequentemente desenhado com um corpo de macaco.

Reconhecimento

Estátua de Charles Darwin no Museu de História Natural de Londres.
Ainda durante a vida de Darwin, muitas espécies de seres vivos e elementos geográficos foram batizados em sua homenagem, entre eles, o Monte Darwin, nos Andes, em celebração ao seu vigésimo quinto aniversário. A capital do Northern Territory na Austrália também foi batizada com o seu nome em comemoração à passagem do Beagle por ali, em 1839. No mesmo território, foram batizados com o seu nome uma universidade e um parque nacional.
As 14 espécies de tentilhões que ele estudou em Galápagos são chamadas "tentilhões de Darwin" em honra ao seu legado. Em 1964, foi inaugurado em Carmbridge o Darwin College em honra à sua família e, parcialmente, porque os Darwin eram os donos do terreno usado. Em 1992, Darwin foi posicionado em décimo sexto lugar na As 100 maiores personalidades da História, compilada pelo historiador Michael H. Hart. Darwin também figura na nota de dez libras introduzida pelo banco da Inglaterra em 2000 em substituição a Charles Dickens. Sua barba impressionante e difícil de ser copiada foi apontada como um dos fatores que contribuíram para a escolha. Darwin também aparece em quarto lugar na 100 Greatest Britons, uma lista compilada por meio de voto popular pela BBC.

Eugenia

Seguindo a publicação da "Origem das Espécies", o primo de Darwin, Francis Galton, aplicou as ideias de Darwin à sociedade, de forma a promover o conceito de "melhorias hereditárias". Ele iniciou este trabalho em 1865, completando-o em 1869. Em "The Descent of Man", Darwin concordou que Galton tivesse demonstrado que "talento" e "genialidade" em humanos eram provavelmente herdados mas acreditava que as mudanças sociais que ele propunha eram muito utópicas. Nem Galton nem Darwin concordavam que o Estado devesse interferir nestas questões. Acreditavam que, no máximo, a hereditariedade deveria ser considerada na escolha de cônjuges. Em 1883, depois da morte de Darwin, Galton começou a chamar a sua filosofia social de Eugenia. No século XX, movimentos de eugenia ganharam popularidade em vários países e foram associados a programas de controle de reprodução tais como leis de esterilização compulsória. Tais movimentos acabaram sendo estigmatizados após serem usados na retórica da Alemanha Nazista em suas metas de alcançar "pureza" racial.

Darwinismo S

Darwinismo social

Em 1944 o historiador americano Richard Hofstadter aplicou o termo "Darwinismo Social" para descrever o pensamento desenvolvido durante os séculos XIX e XX a partir das ideias de Thomas Malthus e Herbert Spencer, que aplicaram as noções de evolução e sobrevivência do mais apto às sociedades e nações. Estas ideias caíram em descrédito após serem associadas ao racismo e ao imperialismo. Note que na época de Darwin a diferença entre o que mais tarde seria chamado de "darwinismo social" e simplesmente "darwinismo" não era clara. Contudo, Darwin não acreditava que sua teoria científica implicasse qualquer teoria particular de governo ou ordem social.
O uso do termo "Darwinismo Social" para descrever as ideias de Malthus não é muito adequado, uma vez que Malthus morreu em 1834, portanto antes que a teoria de Darwin tivesse sido concebida. Além disso, de fato, a teoria de Darwin é que foi inspirada em um ensaio de Malthus de 1838, Princípio da População. O "progressivismo" evolutivo de Spencer e suas ideias políticas e sociais também foram muito influenciados pelas ideias de Malthus e seus livros sobre economia (de 1851) e evolução (de 1855) são ambos anteriores à publicação da "Origem das Espécies" (de 1859).


TEORIA DE DARWIM

                                                A TEORIA DE DARWIN




o        Definição de evolução
§         A evolução biológica
§         Evolução humana
o        Criacionista    Desenho inteligente    Lamarck
o        Darwin
o        Mendel
o        Neodarwinismo    Teoria Sintética
o        Genética evolutiva
§         Garantia e segurança
§         Diferenciação sexual
o        Variabilidade genética
o        Criacionismo   Desenho inteligente    Lamarck    Darwin
o        Mendel
o        Teoria-Neodarwinista    Teoria sintética    TGECV




III.4. CRÍTICA DA TEORIA DE DARWIN OU DARWINISMO
A teoria darwinista considera como motor da evolução a adaptação ao meio ambiente derivado do efeito combinado da seleção natural e das mutações aleatórias. A pesar de ser geralmente aceite, colocou desde o início bastantes problemas do ponto de vista científico. Antes de entrar na sua enumeração, vou analisar por que se impôs a Teoria de Lamarck ou outras de natureza semelhante. No final deste apartado, depois da citada enumeração, comentarei as dificuldades atuais para a sua rejeição ou substituição.

Na segunda metade do século XIX, o racionalismo humanista tinha-se estendido a todos os ambientes científicos e encontrava-se em pleno apogeu. Já existiam suficientes indícios de que a idade da terra era muito maior do que se tinha pensado, fazia falta uma teoria de caráter científico que enquadrasse o ser humano na história do planeta.

Claro, a nova teoria da evolução tinha que cumprir uma condição aparentemente científica, tinha que afastar-se completa e radicalmente das ideias religiosas que tantos obstáculos tinham criado ao desenvolvimento científico dos últimos séculos. Os velhos problemas de Galileu e Miguel Servet não se tinham sido esquecidos pela comunidade científica; Esperemos que não se esqueçam nunca!

A Teoria de Lamarck parecia muito lógica e razoável, mas padecia de um problema, estava dando protagonismo à vida fora da dimensão humana, havia algo no interior das plantas e animais que evolucionava de forma consciente e dirigida perante modificações meio ambientais.

Por um lado, a poderosa influência das ideias religiosas, ainda hoje subsiste, não podia permitir o monopólio da espiritualidade; e, por outra, a comunidade científica não ia entrar em conflito abertamente com os poderes fáticos religiosos para deslocar a vida consciente e inteligente para uma escala interna aos organismos vivos, diferentes deles mesmos. Além disso, não havia provas científicas da sua existência. Neste caso, poderíamos falar de tese, antítese e síntese, qualquer teoria que solucionasse as contradições da época, com um mínimo de rigor nas suas considerações, sem sombra de dúvidas, triunfaria.

Neste contexto surgiu a Teoria Darwinista, mostrando claramente os efeitos da evolução das espécies, do ponto de vista científico não havia nenhuma dúvida razoável de que o homem descende do macaco, e que saibamos ninguém colocou em dúvida fora do âmbito estritamente religioso como é a Teoria Criacionista. De fato até as confissões religiosas predominantes não atacam diretamente a Teoria Darwinista.

Outro aspecto curioso é que o título da obra de Darwin refere-se à “evolução das espécies” e não à “evolução vida” pelo que se evita ter que definir a vida, isto não deve ser nada fácil, porque não se sabe muito bem se a existência da vida tem caráter científico ou antes filosófico.
Não se trata de negar ou diminuir a grande contribuição de Darwin para o pensamento moderno no sentido antropológico, mas sim de delimitar a extensão da sua teoria e evitar que implicações errôneas ou defeituosas tenham efeitos negativos no desenvolvimento da sociedade. Convém assinalar que qualquer teoria sobre a evolução tem inumeráveis consequências sobre o pensamento filosófico e social, que impregna vários posicionamentos e atuações individuais; por exemplo, diferentes aproximações a certos problemas de justiça social ou à eficiência de um determinado sistema educativo.
 Charles Darwin (1809-1882)
(Imagem de domínio público)
 
Os pontos débeis desta teoria são numerosos e encontram-se inter-relacionados; não obstante, vamos tentar indicá-los por ordem de importância de uma perspectiva metodológica ainda que isso signifique mencionar algum tema repetidas vezes por colocar problemas de diferente natureza:
1.      A teoria darwinista da seleção natural tenta explicar o desaparecimento de modificações genéticas não ótimas pela falta ou menor adaptação dos indivíduos ao meio, mas não diz nada da origem das modificações nem dos processos em que se levam a cabo.
Implicitamente está negando ou reduzindo à sua mais mínima expressão o próprio conceito de evolução uma vez que os novos seres se compõem da mesma informação genética que os seus antecessores, com supostas mutações que podem ter um efeito tanto positivo como negativo. O processo da evolução não se situa nas mudanças na informação genética, mas sim no desaparecimento das mudanças menos favoráveis. No seu tempo não existiam conhecimentos genéticos, mas sabia que algo se transmitia de umas gerações para outras.
De forma indireta assume-se que onde não há seleção natural não há evolução.
2.      O argumento central da seleção natural ou dito de outra forma “o que existe é porque sobreviveu ou não desapareceu” é uma tautologia pelo que não há forma humana de negá-lo. A única crítica possível a esta argumentação é assinalar a falta de rigor científico na mesma.
3.      O modelo, assim configurado, só funciona a longo prazo na nossa escala física, logo elimina a evolução a curto prazo e assim surgem ideias como que o homo sapiens nos seus momentos iniciais tinha praticamente a mesma capacidade intelectual que na atualidade, estando completamente estendidas nos nossos dias. Com isso, a única coisa que se consegue é agudizar artificialmente a problemática dos saltos evolutivo.


"Os gatos monteses espanhóis descendentes diretos dos gatos selvagens de há 20.000 anos, vêem melhor de dia do que os gatos domésticos…mas a sua verdadeira importância reside em que propõe um novo mecanismo de adaptação rápida das espécies, em muito poucos anos (entre 15.000 e 20.000) em termos evolutivos. ...a adaptação dos animais ao seu meio tem lugar mediante a morte de determinadas células, neste caso neurônios, durante a segunda metade do desenvolvimento fetal..."

El País 15-01-1993. Journal of Neuroscience.

 
 
4.      De forma implícita, a teoria darwinista está assumindo a aleatoriedade das modificações genéticas, daí o nome geralmente usado de “mutações aleatórias”, e negando a existência de um verdadeiro motor da evolução. Sem nenhuma prova científica e quando a lógica parecia indicar o contrário.
5.      Obviamente Darwin não demonstrou cientificamente a aleatoriedade em todos os casos das variações na informação genética, também não se demonstrou posteriormente, tomou-se como um axioma.
Que eu saiba ainda não nos disseram que distribuição estatística seguem as incertas mutações, será a distribuição uniforme ou a normal, a de Poison ou a de Ficher. Sem dúvida, um grande segredo da ciência ou mistério metafísico.

Sob determinados pressupostos, o método de evolução mediante mutações ou modificações aleatórias pode ser aceitável; está demonstrado que algumas bactérias produzem bactérias diferentes em pequeníssimas proporções, mas que permite que se mudem as condições meio ambientais, como a acidez do meio em que vivem, sejam estas a sobreviver e depois de numerosas gerações sejam as que componham a nova população de bactérias e, ao mesmo tempo, produzam uma pequeníssima proporção de bactérias como as iniciais que, quando necessário, voltariam a permitir a sobrevivência da espécie.


"...sequênciação completa do pequeno cromossoma Y humano
… A surpresa foi que uma quarta parte são longos palíndromos: sequências genéticas que se lêem da mesma maneira da esquerda para a direita e da direita para a esquerda e constam de dois braços. Os investigadores acreditam que os palíndromos, que contêm todos os genes dos testículos, permitem o intercambio de informação dentro do mesmo cromossoma e que desta forma se reparam ou se transmitem as mutações"

El País 21-06-2003.

 
Este é o típico exemplo que se utiliza para “demonstrar” a teoria de Darwin, mas é um caso muito particular no qual a descendência se produz em quantidades gigantescas e as gerações se produzem a uma velocidade também muito grande.

Também não está completamente livre de críticas este exemplo, pois as pretendidas mutações ou modificações aleatórias não são modificações aleatórias de umas quantas letras ou unidades elementares de ADN, mas sim que bem poderiam entender-se como modificações pré-estabelecidas e gerais em uma ou várias partes do ADN que forma um conjunto eficaz, em relação a características distintas do novo ser, e preservando o código estrutural na sua integridade. Ou seja, o fato de utilizar certamente o mecanismo da seleção natural, não implica por si mesmo que não se utilize outros mecanismos para gerar a diversidade da descendência.

Além disso, a seleção natural não consegue eliminar a variante supostamente menos adaptada visto que esta linha evolutiva se mantém como expõe o mesmo exemplo.
Mas o mais grave é o fato de que depois de aceitar como demonstrado que as mutações são aleatórias se aceita como demonstrado o contrário, que as mutações são aleatórias mas por grupos perfeitamente delimitados e com pontos de entrada específicos; o que seria absolutamente incompatível com a primeira aleatoriedade tão “demonstrada” seguindo o método científico.
6.      Já houve críticas acerca da falta de método científico desta teoria, em concreto pode-se classificar como teoria suportada pelo método indutivo a partir da observação de determinados fatos e tirar inferências sobre a generalidade.
O método indutivo é perfeitamente válido, mas a generalização que efetua deve cumprir com certos requisitos. Um deles é que qualquer exemplo que não cumpra a teoria implica a sua refutação. A este respeito, podemos citar os seguintes casos:
o        As mudanças genéticas que estão a conseguir as novas técnicas não têm caráter aleatório, mas sim dirigido e, além disso, o mecanismo da seleção natural não está provocando o aparecimento de novos seres como os presentes a agricultura atual. Poderia discutir-se se estas mudanças realizadas pelos humanos são ou não naturais, mas há que ter em conta que os humanos, salvo prova em contrário, formam parte da natureza tal como os vírus. Supondo que o parágrafo seguinte fosse admitido, não se poderia alegar que as mudanças que provocam os vírus não são naturais.


"Mais de 200 dos genes humanos já identificados parecem ser o resultado da transferência horizontal ou direta de genes de bactérias (sem passar por outro organismo na evolução)"

El País 19-02-2001. Congreso de la Asociación Americana para el Avance del Ciencia.

 

o        Do mesmo modo, conhecemos que os vírus fazem mudanças no ADN das células invadidas para se reproduzirem a si mesmos. Não seria de estranhar que possam realizar outro tipo de mudanças, por exemplo com a finalidade de enganar o sistema imunológico no futuro; nem que alguma destas modificações se transmita ou que não se transmitam algumas das reações do organismo no âmbito genético como defesa perante estas agressões.
o        Recentemente estão aparecendo novos conhecimentos da evolução genética que contradizem abertamente a Teoria Darwinista. São tão numerosos que não se podem mencionar, alguns deles estão distribuídos por todo este livro em forma de citação literal de notícias que foram aparecendo com posterioridade à formulação inicial da TGECV e, na maioria dos casos, da própria redação do livro.

7.      Esta teoria, por outra parte, importantes carências na hora de explicar a realidade. Darwin tentou, sem êxito, dar um sentido mais amplo que o da pura especialização de certas tarefas à diferenciação sexual porque intuía que tinha que o fazer; mas a sua teoria não oferece nenhuma explicação, exceto a de que deve ser um dos melhores métodos de evolução e por isso existe.
Claro que também não explica porquê a descendência em animais superiores de indivíduos geneticamente muito próximos como o caso de irmãos não é viável ou apresenta graves deficiências.
Dá-me a impressão de que a seleção sexual, sobre a que Darwin escreveu um livro, vai conceptual e diretamente contra a seleção natural, já que a primeira explica a tendência evolutiva enquanto a segunda só explica a eliminação de algum ramo da efetiva tendência evolutiva.
Qualquer granjeiro sabe perfeitamente a grande proeminência da seleção sexual em relação à seleção natural. Não é de estranhar que para convencer da não relevância da seleção sexual Darwin tivesse que ir às ilhas Galápagos, onde não havia nenhum granjeiro que lhe corrigisse abertamente a importância e extensão das suas afirmações.
A ironia da evolução da vida faz com que à seleção sexual, de semental ou de semente, os engenheiros e granjeiros atuais chamem seleção natural. Sem dúvida, uma conquista ou mais uma adaptação da Teoria Darwinista.
8.      Outra carência importante é a quase impossibilidade de se produzirem os denominados saltos evolutivos, é difícil argumentar logicamente uma mudança a estrutura básica do código genético através de mutações. A única opção é recorrer outra vez a longo prazo, com a vantagem acrescida de que quando falamos de largo prazo, automaticamente perdemos a noção temporal. Contudo, o próprio conceito de salto evolutivo impede-nos de utilizar o longo prazo em termos evolutivos.
9.      Outros aspectos relacionados com a diferenciação sexual e os saltos evolutivos, tratados no apartado sobre os objetivos da evolução e que fazem parte da argumentação principal da Teoria da Evolução Condicionada da Vida, encontram-se totalmente ausentes das considerações de Darwin. Isto faz sentido pela diferença temporal de ambas; mas, como citarei mais à frente, nem a Teoria Neodarwinista nem a teoria sintética dizem nada em relação a isso. Pelo contrário, não existem. A vida no âmbito científico não tem nenhum objetivo nem sentido algum!


"essa função de duas bactérias aconteceu primeiro, e depois se somaram as mitocôndrias...
...a transição de procariotas a eucariotas
é a maior descontinuidade evolutiva da história da Terra. As diferenças são enormes, e a transição muito brusca"

El País 14-03-2001.

 
Perante os pontos anteriores, devem existir razoes poderosas para que esta teoria se tenha mantido ao longo de todo o século XX com pequenas modificações conceptuais proporcionadas pela corrente denominada Neodarwinista e pela Teoria Sintética. De fato, estas modificações supõem uma mera atualização da Teoria Darwinista em função das novas descobertas científicas na matéria como veremos ao falar delas. Por isso, para a população em geral, a teoria base continua a ser a Darwinista.

Algumas destas poderosas razões são semelhantes às que tornaram possível a sua aceitação. Se antes comentei s requisitos formais de independência de uma teoria científica de qualquer teoria filosófica ou religiosa, nos nossos dias este requisito continua a manter-se mas com uma agravante, refutar agora a Teoria Darwinista suporia, nalguma medida, que não só o racionalismo dos séculos XVIII e XIX, mas sim toda a comunidade científica do século XX cometeram um grave erro ao requerer e aceitar no seu seio uma teoria tão débil. Uma vez mais os filósofos têm a sua parte de razão e o método científico não é infalível; ao que haveria que acrescentar, e sobretudo se não se aplica corretamente.

A novidade fundamental da TGECV é a consideração da evolução como um mecanismo interno de melhoria dos seres vivos que se transmite à descendência e que, dada a complexidade dos aspectos envolvidos, utiliza múltiplos sistemas, métodos ou procedimentos, configurando-se para cada caso em função das suas condições particulares.

Para um grande sector da sociedade, a aceitação da TGECV, ou de qualquer outra teoria que suponha a existência do mencionado mecanismo interno de melhoria dos seres vivos, suporia um passo atrás. Reconhecer cientificamente que parece existir uma evolução inteligente, dirigida do próprio interior dos seres vivos, soa a uma concepção religiosa da vida, altera o fato diferenciador do ser humano, e ataca o prazenteiro egocentrismo da espécie humana, por outras palavras é totalmente inaceitável por princípio.

Outro grande sector da sociedade mantém as suas ideias religiosas, consequentemente, os comentários do parágrafo anterior são igualmente aplicáveis; com as mesmas palavras, é totalmente inaceitável por outro princípio.

Dito de outra forma, a Teoria de Darwin é uma teoria muito conveniente socialmente falando, tendo uma forte componente idealista dado que ao negar a evolução a curto prazo não compromete a fixação no âmbito genético de determinadas características relacionadas com a desejável igualdade de oportunidades.

Neste sentido, realizaram-se esforços para manter em vigor a essência da teoria. Contudo, as debilidades mencionadas nos pontos 1) a 5) anteriores mantêm-se praticamente, apesar de que, com a introdução da genética e os conhecimentos derivados de outros avanços da ciência, pode falar-se de evolução a curto prazo mas sempre na escala microscópica. Estas atualizações levaram-se a cabo principalmente mediante, primeiro, a denominada corrente Neodarwinista e, depois, a Teoria Sintética; ainda que esta última tente distanciar-se um pouco mais, a meu ver, não consegue.

As atualizações foram possíveis em grande medida devido a que continuamos sem ter provas contundentes da natureza não aleatória das modificações da informação genética e a que o termo “seleção natural” leva-se, por vezes, a uma generalização quase absurda pelo seu conteúdo tautológico.

Por seu lado, todo o desconhecido foi sendo considerado a priori aleatório, inclusivamente contra a lógica. Também esta tendência está diminuindo ou limitando-se, à vista das explicações, baseadas na teoria do caos e as estruturas fractais, de fatos que pareciam totalmente aleatórios com anterioridade (diga-se de passagem, o contrário ao famoso exemplo da borboleta).

Apesar da maior compreensão da diferenciação sexual em relação à sua diferença com a evolução em linha e em relação à igualdade sexual no social do ponto de vista científico; a falta de explicações satisfatórias do apontado nos pontos 7) e 8) anteriores, faz com que, por via metodológica, nos campos da biologia e da genética se esteja questionando cada vez mais a essência da teoria darwinista. Em qualquer caso, será dificilmente compatível com a teoria da seleção natural qualquer explicação racional dos fatos a que se referem os referidos pontos.

Sempre houve autores que não partilham a visão dominante, ainda que não tenham conseguido formalizar uma teoria alternativa à mesma capaz de deslocá-la e, por outro lado, a manifestação expressa desta postura implica de alguma maneira, ainda que cada vez menos, uma marginalização profissional, e o risco de ser acusados de ser próximos a determinadas ideologias, que não têm nada que ver com uma postura científica ou contrária; sem dúvida, isto se deve às aparentes repercussões filosóficas e sociais que podem implicar as diversas teorias. Digo aparentes, porque a realidade não vai mudar por se explicar melhor de ou outra forma.

Este risco sofrerá em maior medida a TGECV, para citar como exemplo recorrente a herança da inteligência. Quero aproveitar esta ocasião para manifestar, em defesa deste exemplo, que foi a causa, se não principal pelo menos direta, do desenvolvimento da presente teoria e, portanto, não tendo escolhido com a finalidade de chamar a atenção. Além disso, é difícil conseguir modelos de evolução que possam ser verificáveis estatisticamente.

A lista de autores seria demasiado longa mas podemos citar especialmente Adam Sedgwick (1785-1873), eminente geólogo inglês, por ser um dos primeiros que, independentemente do seu ataque a Darwin por motivos religiosos (educado na Teoria Criacionista dominante na sua época), depois de ler a sua teoria expressou o seguinte:
"You have deserted-after a start in that tram-road of all solid physical truth-the true meted of induction..."

Que diz que Darwin, depois de um começo na senda da pura realidade física, abandona o verdadeiro método indutivo...

Adam Sedgwick, apesar da sua educação criacionista, não se opunha à evolução ou desenvolvimento no seu amplo sentido. Ele pensava que a Terra era extremamente velha, como Darwin reconhece nos seus apontamentos das aulas que teve com o próprio Sedgwick na universidade.

Contudo, Sedgwick acreditava na criação Divina da vida durante longos períodos de tempo... Visto que também dizia que a evolução era um fato da história. As suas objeções principais à teoria de Darwin eram de caráter amoral e materialista da seleção natural e o abandono do método científico.
Em conclusão, a TGECV entende que a seleção natural é um método de evolução mais, mas nem único, nem geral, nem o mais importante. E, do ponto de vista conceptual, este método produz-se em momento posterior às mudanças na informação genética que formam a verdadeira evolução.